O fim de um paradigma: por que a pesquisa deixou de ser um assunto da academia e se tornou uma questão de sobrevivência empresarial
- Instituto da Transformação Digital
- 13 de jul.
- 8 min de leitura
Uma nova perspectiva sobre a pesquisa na Era da Inteligência Organizacional
Ao longo da história, a pesquisa sempre evoluiu junto com a própria humanidade.
Durante séculos, ela teve como missão ampliar as fronteiras do conhecimento, compreender os fenômenos da natureza e responder às grandes perguntas da ciência. Foi essa extraordinária jornada que consolidou aquilo que hoje conhecemos como Pesquisa Básica, responsável por inúmeras descobertas que transformaram a medicina, a engenharia, a agricultura, a física, a química e praticamente todas as áreas do conhecimento humano.
Com o avanço da industrialização e da economia do conhecimento, surgiu um novo desafio.
Não bastava mais compreender o mundo. Era preciso transformar conhecimento em soluções capazes de melhorar a vida das pessoas, aumentar a competitividade das empresas e impulsionar o desenvolvimento econômico.
Foi nesse contexto que ganhou protagonismo a Pesquisa Aplicada, aproximando ciência, tecnologia e mercado, acelerando a criação de produtos, processos, serviços e novos modelos de negócio.
Durante décadas, essa classificação, Pesquisa Básica e Pesquisa Aplicada, foi suficiente para explicar como o conhecimento era produzido e convertido em inovação.
Ela continua absolutamente válida. Na verdade, nunca foi tão importante fortalecer tanto a ciência quanto a pesquisa orientada ao mercado. Entretanto, vivemos uma nova inflexão histórica.
Estamos entrando em uma economia em que conhecimento, tecnologia e inovação deixaram de ser diferenciais competitivos isolados. Tornaram-se requisitos mínimos para competir.
O verdadeiro diferencial passou a ser outro. A capacidade das organizações de aprender continuamente, adaptar-se mais rápido que seus concorrentes, desenvolver novas competências, conectar inteligências, antecipar transformações e criar mercados que ainda não existem.
Ao longo dos últimos anos, convivendo com conselhos de administração, CEOs, empreendedores, pesquisadores, ICTs, ecossistemas de inovação e milhares de executivos em diferentes setores, fomos percebendo que esse movimento ainda não possuía uma linguagem capaz de explicá-lo.
As empresas mais preparadas para o futuro já não pesquisam apenas para gerar conhecimento. Também não pesquisam apenas para desenvolver novos produtos.
Elas pesquisam para desenvolver a si próprias. Pesquisam para ampliar sua inteligência organizacional. Pesquisam para construir capacidades que lhes permitam evoluir continuamente em um ambiente de mudanças permanentes e complexas.
Essa constatação nos levou a uma reflexão que amadureceu ao longo dos últimos anos.
Talvez não estejamos diante da substituição da teoria clássica da pesquisa. Talvez estejamos diante de sua evolução.
Assim como a Pesquisa Aplicada ampliou o alcance da Pesquisa Básica ao aproximar ciência e mercado, acredito que a nova economia exige uma terceira dimensão da pesquisa, complementar às anteriores e voltada ao desenvolvimento das capacidades organizacionais necessárias para prosperar na Era da Inteligência.
É essa hipótese que propomos explorar nesta série. Não como uma verdade acabada, mas como um convite ao diálogo com líderes empresariais, conselheiros, pesquisadores, gestores de inovação e todos aqueles que acreditam que a pesquisa continuará sendo um dos principais motores do desenvolvimento humano e econômico nas próximas décadas.
Ao longo desta jornada, construiremos esse raciocínio de forma progressiva:
Parte I: O fim de um paradigma
Por que a pesquisa deixou de ser um tema predominantemente acadêmico e passou a ocupar o centro das decisões estratégicas das organizações.
Parte II: Da geração de conhecimento à geração de valor
As diferenças entre Pesquisa Básica e Pesquisa Aplicada, os dados do investimento empresarial em pesquisa no Brasil e nas economias mais inovadoras do mundo, além do crescimento dos ICTs privados como expressão dessa transformação.
Parte III: A evolução da teoria da pesquisa
A apresentação da Pesquisa Estratégica como uma evolução da teoria clássica, ampliando o papel da pesquisa para a construção deliberada de capacidades organizacionais, inteligência coletiva, aprendizagem contínua e vantagem adaptativa.
Parte IV: Organizações que pesquisam para evoluir
Como Conselhos de Administração, C-Levels e lideranças podem transformar a pesquisa em uma competência permanente de evolução organizacional e criação de novos mercados.
Parte V: Manifesto da Pesquisa Estratégica
A consolidação dessa nova perspectiva como uma contribuição para a Era da Inteligência Organizacional e para a Segunda Onda da Transformação Digital, propondo um novo olhar sobre o papel da pesquisa no desenvolvimento das organizações do século XXI.
Nosso convite é simples. Não leia esta série apenas como uma reflexão sobre pesquisa. Leia-a como uma reflexão sobre o futuro das organizações.
Acreditamos que a próxima grande vantagem competitiva não pertencerá às empresas que simplesmente inovarem mais. Pertencerá às organizações que desenvolverem a capacidade de evoluir continuamente.
E toda evolução começa com uma pergunta. Talvez esteja chegando o momento de fazermos novas perguntas sobre o verdadeiro papel da pesquisa no futuro dos negócios.
É exatamente essa jornada que começamos agora.
"O fim de um paradigma: por que a pesquisa deixou de ser um assunto da academia e se tornou uma questão de sobrevivência empresarial.”
As empresas que dominarão a próxima década não serão aquelas que simplesmente inovarem mais. Serão aquelas que aprenderem a se adaptar e evoluírem mais rápido."
Durante muito tempo, quando alguém mencionava a palavra pesquisa, a imagem que imediatamente surgia era a de um laboratório universitário. Cientistas cercados por equipamentos sofisticados, artigos publicados em revistas especializadas e descobertas que, algum dia, poderiam chegar ao mercado.
Esse modelo foi responsável por avanços extraordinários para a humanidade. Graças à pesquisa científica, ampliamos nosso conhecimento sobre a natureza, desenvolvemos vacinas, criamos novos materiais, revolucionamos a medicina, a engenharia e praticamente todos os campos do conhecimento.
Mas o mundo mudou. E talvez essa seja uma das mudanças mais profundas, e menos percebidas, pelos conselhos de administração e pelas lideranças empresariais.
Hoje, o conhecimento já não é mais escasso.
Ele está disponível em velocidade e volume nunca vistos. Inteligência Artificial, plataformas digitais, universidades, centros de pesquisa, comunidades globais e redes colaborativas produzem diariamente uma quantidade de informação impossível de ser absorvida por qualquer organização.
Se conhecimento fosse suficiente para garantir vantagem competitiva, praticamente todas as empresas seriam líderes em seus mercados.
Mas não são. Porque a vantagem competitiva deixou de estar no acesso ao conhecimento.
Ela passou a estar na capacidade de transformá-lo em valor. Este é o novo campo de batalha das empresas.
Durante a Revolução Industrial, as organizações competiam por acesso a matérias-primas. Na economia industrial, vencer significava produzir mais, com menor custo e maior escala. Na economia da informação, passou a vencer quem dominava dados.
Agora, estamos entrando em uma nova etapa: A Economia da Inteligência.
Nela, o recurso mais escasso já não é capital financeiro, infraestrutura ou tecnologia. É a capacidade organizacional de aprender continuamente e transformar esse aprendizado em novas competências, novos produtos, novos modelos de negócio e novos mercados.
Essa mudança altera profundamente o papel da pesquisa dentro das empresas.
Ela deixa de ser uma atividade complementar. Passa a ser uma competência estratégica.
O paradoxo que poucos perceberam:
Nunca tivemos acesso a tanto conhecimento. Nunca tivemos tantas tecnologias disponíveis. Nunca tivemos tantas ferramentas baseadas em Inteligência Artificial.
E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil manter uma vantagem competitiva duradoura.
A explicação é simples. As tecnologias se difundem rapidamente. As metodologias são copiadas.
Os produtos são imitados. Os processos são automatizados. Aquilo que ontem era inovação, amanhã passa a ser requisito mínimo para competir.
A verdadeira vantagem competitiva deixou de estar naquilo que a empresa possui. Ela passou a estar naquilo que ela é capaz de aprender antes dos concorrentes.
A pesquisa saiu da universidade.
Durante décadas, acreditou-se que o caminho natural da inovação era relativamente linear.
Primeiro a universidade produzia conhecimento. Depois esse conhecimento era transferido para empresas. Então surgiam produtos, tecnologias e novos negócios.
Esse modelo continua relevante e seguirá sendo indispensável para o avanço científico.
Mas ele já não explica, sozinho, como as organizações inovam.
Hoje, empresas desenvolvem algoritmos proprietários, criam laboratórios de Inteligência Artificial, estruturam centros de pesquisa internos, registram patentes, desenvolvem novos materiais, constroem plataformas digitais, criam ecossistemas de inovação e estabelecem redes globais de colaboração tecnológica.
Em muitos casos, a pesquisa nasce dentro da própria empresa. Não porque a universidade perdeu importância. Mas porque o ritmo dos mercados exige uma capacidade permanente de experimentação, aprendizagem e adaptação.
Os números mostram que essa transformação já começou
Até aqui, podemos imaginar que essa mudança seja apenas uma percepção sobre a evolução dos negócios. Mas os números contam uma história ainda mais reveladora.
Durante muito tempo, associamos pesquisa e desenvolvimento quase exclusivamente ao investimento público, às universidades e aos grandes centros de pesquisa. Essa percepção ainda está presente no imaginário de muitos executivos.
A realidade, porém, já começou a mudar.
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que cerca de 90% das empresas inovadoras brasileiras financiam suas iniciativas de inovação predominantemente com recursos próprios. Apenas uma pequena parcela utiliza, de forma significativa, linhas públicas de financiamento para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
Esse dado merece uma reflexão: Ele demonstra que a inovação deixou de ser percebida como uma responsabilidade do Estado para tornar-se uma decisão estratégica das próprias empresas. As lideranças compreenderam que competir exige desenvolver capacidades próprias de pesquisa, experimentação e aprendizagem contínua.
Mas há outro indicador que torna essa transformação ainda mais evidente. Quando observamos quem financia a pesquisa nas economias mais inovadoras do mundo, percebemos que existe uma relação direta entre protagonismo empresarial e capacidade nacional de inovar.
Os números revelam uma diferença importante (se você desejar, o ITD tem este estudo completo, pois reuniu dados de diversas fontes oficiais destes e de outros países).
Nas economias que lideram os rankings globais de inovação, são as próprias empresas que respondem pela maior parte dos investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento.
No Brasil, embora o investimento privado tenha crescido de forma consistente nos últimos anos, ele ainda representa uma participação menor do que a observada nesses países.
Essa comparação não deve ser interpretada como uma fragilidade. Pelo contrário. Ela revela o tamanho da oportunidade que temos pela frente.
À medida que mais empresas brasileiras compreendem que pesquisa não é um centro de custos, mas um ativo estratégico para construir vantagem competitiva, surgem novos modelos de organização capazes de acelerar essa transformação.
Talvez seja justamente por isso que estamos assistindo ao crescimento dos Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) privados. Eles não representam apenas uma nova estrutura jurídica. Representam uma nova forma de pensar o papel da pesquisa dentro das organizações.
Um movimento nem tão “silencioso” está transformando o Brasil
Enquanto parte do debate público ainda associa pesquisa exclusivamente ao ambiente acadêmico, um movimento discreto, mas consistente, começa a redesenhar o ecossistema nacional de inovação.
Cada vez mais empresas brasileiras estruturam áreas próprias de pesquisa e desenvolvimento. Criam laboratórios internos. Investem em propriedade intelectual. Constituem centros tecnológicos. Organizam ambientes de experimentação.
E um fenômeno merece especial atenção: o crescimento dos Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) privados, a partir da publicação da Lei complementar 200/2023.
Não se trata apenas de uma nova estrutura organizacional. Trata-se de uma mudança de mentalidade.
As organizações começam a compreender que pesquisar deixou de ser uma atividade episódica. Passa a ser uma capacidade permanente.
A pergunta que os Conselhos ainda não estão fazendo
Durante muitos anos, uma das perguntas mais frequentes nas reuniões estratégicas foi:
"Quanto devemos investir em inovação?"
Ela continua importante. Mas talvez já não seja suficiente. Na Economia da Inteligência, existe uma pergunta ainda mais relevante:
Que capacidade permanente de geração de conhecimento, aprendizagem e transformação estamos construindo dentro da organização?
A diferença entre essas duas perguntas é profunda. A primeira trata inovação como projeto. A segunda trata aprendizagem como estratégia.
É justamente essa mudança de perspectiva que começa a separar empresas que apenas acompanham as transformações daquelas que passam a liderá-las.
Estamos diante do fim de um paradigma?
Durante décadas, a pesquisa foi compreendida principalmente como uma atividade voltada à produção de conhecimento científico. Depois, passou a ser reconhecida como instrumento para desenvolver tecnologias, produtos e processos. Mas talvez estejamos entrando em uma nova etapa.
Uma etapa em que pesquisar não significará apenas descobrir ou desenvolver. Significará construir a capacidade contínua de evoluir. Essa diferença parece sutil, mas não é.
Pode redefinir a forma como empresas, conselhos de administração e lideranças compreenderão a inovação na próxima década.
Talvez estejamos assistindo ao nascimento de um novo paradigma.
E, como acontece com toda grande mudança de paradigma, primeiro ela parece apenas uma ideia diferente. Até que, de repente, passa a explicar um mundo que o paradigma anterior já não consegue explicar.
No próximo artigo desta série, vamos explorar como a pesquisa evoluiu ao longo das últimas décadas, compreender as diferenças entre pesquisa básica e pesquisa aplicada, analisar dados inéditos sobre o investimento empresarial em inovação no Brasil e no mundo e entender por que o crescimento dos ICTs privados pode representar um dos movimentos mais estratégicos da economia brasileira.
Talvez seja justamente nessa evolução que esteja escondida uma das maiores oportunidades competitivas para as empresas da próxima década.
Autor: Paulo Kendzerski , Presidente do Instituto da Transformação Digital (ITD)



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