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Parte II: Da geração de conhecimento à geração de valor

Quando conhecimento deixa de ser vantagem competitiva, a pesquisa precisa evoluir.

Durante muito tempo, acreditamos que conhecimento era sinônimo de vantagem competitiva.


Essa ideia fez sentido durante décadas. Hoje, talvez seja uma das maiores ilusões da gestão contemporânea. Conhecimento continua indispensável. Mas deixou de ser suficiente.


O verdadeiro diferencial competitivo passou a ser outro: a capacidade das organizações de transformar conhecimento em valor de forma contínua.


É justamente essa mudança que explica por que a pesquisa deixou de ocupar um espaço periférico nas organizações e passou a integrar as decisões estratégicas dos Conselhos de Administração.


No artigo anterior, propomos uma reflexão que pode parecer desconfortável para muitos executivos.


Durante décadas, acreditamos que a pesquisa era um tema predominantemente acadêmico.


Hoje, ela ocupa cada vez mais espaço nas agendas dos Conselhos de Administração, dos CEOs e das lideranças responsáveis pelo futuro das organizações.


Mas essa mudança não aconteceu por acaso. Ela acompanha uma transformação muito maior: a evolução da própria economia. A história mostra que, sempre que a economia muda, a pesquisa também evolui. Não porque a ciência muda sua essência. Mas porque a sociedade passa a fazer novas perguntas.


Toda vez que a economia muda, a pesquisa também evolui.


Foi assim na Revolução Científica. Foi assim na Revolução Industrial. Foi assim na Economia do Conhecimento. E agora voltamos a viver um desses momentos. Talvez estejamos diante de uma nova evolução da própria pesquisa.


Primeiro, aprendemos a compreender o mundo


A primeira grande missão da pesquisa foi responder às perguntas fundamentais da humanidade.

Como a matéria se comporta?

Como a vida funciona?

Como as doenças se desenvolvem?

Como o universo se organiza?


Foi essa extraordinária jornada que deu origem àquilo que chamamos de Pesquisa Básica.


Seu objetivo nunca foi criar produtos. Seu compromisso sempre foi ampliar as fronteiras do conhecimento humano. Graças a ela surgiram descobertas que, décadas mais tarde, transformariam completamente nossa sociedade. Vacinas. Internet. GPS. Computação. Biotecnologia. Inteligência Artificial.


Praticamente todas as grandes revoluções tecnológicas começaram com perguntas que, naquele momento, não possuíam qualquer aplicação comercial imediata. Esse ponto merece destaque. Nenhuma sociedade se desenvolve sem Pesquisa Básica. Ela continuará sendo o alicerce da inovação.


Depois, aprendemos a transformar conhecimento em valor


Com a industrialização e a crescente competição entre empresas, uma nova necessidade surgiu. Já não bastava compreender o mundo. Era preciso transformar conhecimento em soluções.


Nascia a Pesquisa Aplicada.


Antes questionávamos: "Como o mundo funciona?"

Agora: "Como podemos utilizar esse conhecimento para resolver problemas reais?"


Essa mudança alterou profundamente a relação entre ciência e mercado.

Universidades continuaram produzindo conhecimento. Organizações passaram a transformá-lo em inovação. Produtos foram criados. Processos foram aperfeiçoados. Medicamentos chegaram à sociedade. Novos materiais foram desenvolvidos. Softwares conectaram pessoas. Modelos de negócio reinventaram setores inteiros.


A Pesquisa Aplicada aproximou definitivamente ciência e economia. Ela transformou conhecimento em riqueza.

Na economia industrial, conhecimento gerava produtos. Na Economia da Inteligência, conhecimento precisa gerar capacidades.

O mercado já está respondendo a essa transformação


No primeiro artigo desta série, apresentamos evidências que mostram uma mudança silenciosa, mas profunda, no papel da pesquisa dentro das organizações.


Vimos que, segundo dados da CNI - Confederação Nacional da Indústria, a grande maioria das empresas inovadoras brasileiras já financia seus projetos de inovação predominantemente com recursos próprios, demonstrando que a pesquisa deixou de ser percebida como uma responsabilidade exclusiva do Estado para tornar-se uma decisão estratégica das próprias empresas.


Também analisamos um comparativo internacional que revela uma característica comum às economias mais inovadoras do mundo: nelas, o protagonismo dos investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento pertence, majoritariamente, ao setor empresarial.


Esses dados reforçam uma constatação importante. A transformação que estamos discutindo nesta série não é uma tendência futura. Ela já está acontecendo.


Se você ainda não leu a Parte I: O fim de um paradigma, recomendamos começar por ela. Os dados apresentados ajudam a compreender por que a pesquisa deixou de ocupar um espaço periférico nas organizações e passou a integrar a agenda estratégica de CEOs, Conselhos de Administração e lideranças empresariais.


Neste segundo artigo, nosso objetivo é avançar um passo além. Mais do que observar os números, precisamos compreender por que essa transformação está acontecendo e quais são suas implicações para o futuro das organizações. Talvez estejamos vivendo exatamente o momento em que essa transformação começa a ganhar velocidade.


O nascimento de uma nova infraestrutura da inovação


Quando as empresas passam a investir continuamente em pesquisa, algo interessante acontece. Elas deixam de depender exclusivamente do conhecimento produzido externamente. Começam a desenvolver sua própria capacidade de aprender.


É nesse contexto que cresce o número de Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) privados. Muitas vezes, eles são percebidos apenas como instrumentos de acesso a incentivos legais ou mecanismos de aproximação com universidades.


Essa visão é limitada. Os ICTs privados representam algo muito maior. Eles simbolizam a institucionalização da pesquisa dentro das organizações. São a demonstração de que aprender continuamente deixou de ser um projeto. Passou a ser uma competência organizacional.

Os ICTs privados não surgiram porque a legislação mudou. Eles surgiram porque a natureza da vantagem competitiva mudou.

Talvez estejamos fazendo uma pergunta incompleta. Durante décadas, a principal pergunta feita pelos executivos foi: "Quanto devemos investir em inovação?"


Ela continua importante. Mas talvez exista uma pergunta mais relevante: "Como podemos construir uma organização capaz de aprender continuamente?"

Perceba que essa não é apenas uma diferença de linguagem. É uma mudança de paradigma.


Na primeira pergunta, pesquisa aparece como investimento. Na segunda, pesquisa passa a ser capacidade organizacional. E talvez seja justamente essa diferença que explique por que algumas organizações conseguem se reinventar continuamente, enquanto outras permanecem presas ao sucesso do passado.


Estamos diante de mais uma evolução


A Pesquisa Básica continua indispensável. A Pesquisa Aplicada continua essencial. Nenhuma delas perdeu importância. Pelo contrário. Ambas se tornaram ainda mais relevantes.


Mas talvez a velocidade das transformações, a Inteligência Artificial, a digitalização dos negócios e a crescente complexidade dos mercados estejam exigindo algo além. Algo que não substitui a Pesquisa Básica. Nem a Pesquisa Aplicada. Mas amplia seu alcance.


Se a Pesquisa Básica nos ensinou a compreender o mundo... e a Pesquisa Aplicada nos ensinou a transformar conhecimento em valor... Talvez estejamos diante da maior mudança no papel da pesquisa desde o surgimento da Pesquisa Aplicada.


Durante séculos pesquisamos para compreender o mundo. Depois aprendemos a transformar esse conhecimento em produtos, serviços e riqueza. Agora começamos a perceber que talvez exista um novo desafio.

“Desenvolver organizações capazes de aprender mais rápido do que as mudanças acontecem.”

Se essa hipótese estiver correta, não estaremos apenas diante de uma nova prática de gestão. Estaremos diante da evolução da própria teoria da pesquisa.

É justamente essa possibilidade que exploraremos no próximo artigo desta série.


Autor: Paulo Kendzerski - Presidente do Instituto da Transformação Digital (ITD)

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